quarta-feira, outubro 24, 2007

SEIS MESE DEPOIS

dança com escadas - fernando saraiva


zona reservada - meireles de pinho


as árvores também morrem - paulo neves



com o vento - cristina ataíde



nodificando no farol - carlets / joaquim pombal / josep matés / marisa alves



pelicano - luís pinheiro


vaso - ângelo ribeiro / moisés tomé



quadrado de céu - joão castro silva

domingo, outubro 07, 2007

TEXTOS NO CATALOGO




Na mesa do café, com dois amigos e no desenrolar de muitas conversas que redundavam à volta das mais diversas temáticas, esboçavam-se ideias para algo, sobre uma temática pertinente e actual. As conversas normalmente convergiam para temas de natureza artística e ecológica, o que nos proporcionou uma grande amplitude de ideias.
Daí surge uma vontade de realizar um projecto com algum actualidade e consistência no Concelho onde vivemos – Vila Nova de Gaia. No decorrer do tempo dialéctico nasce a ideia
- A criação de obras de arte na paisagem,
- A terra como suporte das intervenções artísticas.
A Land Art estava em cima da mesa.
As ideias passam para papel. Era preciso no entanto, encontrar um parceiro para as colocar em prática. Teria que ser uma entidade que reunisse recursos e meios, tais como espaço físico, logístico. A escolha foi direccionada para o Parque Biológico, porque apresenta condições para um acontecimento cultural com esta especificidade.. Após alguns anos, tempo que medeia a apresentação do projecto ao Parque Biológico e a sua concretização, conseguiu-se reunir as condições necessárias, nomeadamente uma equipa empenhada e dedicada para a realização do evento no Parque da Lavandeira.
Este parque recém criado, com uma grande área onde passam diariamente muitas pessoas, foi o espaço perfeito para concretizar uma ideia, e se num futuro próximo se conjugarem as energias e as vontades para continuar a Land Art LAvandeira, é possível aprofundar um projecto artístico onde o domínio da matéria assenta num contexto basicamente ecológico e que estimula os mais diversos sentimentos, mas nunca a indiferença.



Escultor Meireles de Pinho.

CATALOGO - Lavandeira 2007


segunda-feira, outubro 01, 2007

PLANTAS, PAISAGENS E ARTE

por
Jorge Paiva
(Biólogo)

Qualquer agregado populacional (cidades, vilas e aldeias) deve estar perfeitamente integrado na paisagem onde se insere; deve ser o prolongamento da paisagem rural e não constituir um agregado de blocos de betão armado, separados por arruamentos asfaltados, sem quaisquer espaços verdes e sem árvores ou arbustos nas respectivas artérias.
Muitos dos parques actuais da maioria das cidades constituíam áreas florestais que foram sendo incorporadas na zona urbanizada. Isso até aconteceu com muitos dos jardins urbanos. Alguns parques e jardins surgiram também de antigos pomares, como aconteceu com alguns dos primeiros olivais muitos séculos antes da Era Cristã, ou até de jardins dos templos, como o de Karnak, no Egipto, planeado por Nekht, durante o reinado de Tutmés II, 1520-1604 a.C.
Ao referirem-se as áreas verdes urbanas, imediatamente ocorrem à ideia apenas os jardins e os parques, o que não é correcto. É evidente que são zonas verdes vitais, mas não se podem esquecer as árvores plantadas nos arruamentos dos agregados populacionais, as quais, pelas suas múltiplas e extraordinárias funções biológicas, podem inserir-se na referida designação. Uma cidade deve ser toda ela um “arboreto” ou “floresta urbana”, designação utilizada por arquitectos paisagistas, o que não acontece em nenhuma cidade de Portugal Continental. Há cidades estrangeiras onde, no Verão, mal se vislumbra o casario que está completamente coberto de árvores, na maioria mais altas que as casas. Em Portugal isso não acontece, pois, quando existem árvores altas nas ruas, elas são criminosamente e mal podadas, ficando mais semelhantes a postes ou a “monstros vegetais” e, até “monstros artístico”, do que aquilo que verdadeiramente são.
Praticamente toda a gente conhece a importância das áreas verdes urbanas, pois podem contribuir para o lazer e para actividade recreativa dos habitantes, assim como para a purificação do ar, através da função clorofilina exercida pelas plantas. Além disso, servem para amenizar, com a sombra das árvores, o calor dos estios e para conferir à paisagem urbana a “sugestão” verde de um cenário natural. É fundamental que toda a gente se capacite que as plantas são fábricas de biomassa (matéria viva), de energia (ex.: lenha, carvão, resina), de alimentos (ex.: frutos, folhas, pólen), de medicamentos (70% são de origem vegetal), de material de construção e mobiliário e purificadoras do ar pelo oxigénio (O2) que produzem e pelo gás carbónico (CO2) que absorvem através da fotossíntese.
Os parques e os arboretos dos agregados urbanos são hoje também muito utilizados para a prática desportiva de manutenção. No entanto, como as cidades portuguesas têm, no geral, parques de reduzidas dimensões, a presença humana ultrapassa os limites de sobrevivência de muitos seres anti-poluentes e que vivem epifitamente sobre as plantas, neste caso, as árvores (ex.: musgos e líquenes) ou saprofiticamente à custa de matéria orgânica morta, como ramos e folhas (ex.: alguns fungos). Também vivem sobre as plantas alguns seres microcópicos muito úteis, os mixomicetes, predadores de bactérias e, portanto, controladores das populações bacterianas que, livres e em grande número, se podem tornar patogénicas.
Actualmente, alguns jardins e parques como, por exemplo, os jardins botânicos, têm elementos florísticos raros, alguns até em vias de extinção ou até já extintos na Natureza, sendo, por isso, considerados como “pools” (“armazéns”) genéticos.
Depois da descoberta das plantas fotossintéticas em C4, que conseguem concentrar o CO2 no interior folhas, sendo, por isso, mais produtivas e com maior capacidade despoluidora, talvez venha a ser elementos preponderantes dos parques e jardins modernos, estando já a serem utilizadas para a pastorícia por terem maior rendimento hidrocarbonatado na fotossíntese.
A quantidade de oxigénio (O2) necessária para a vivência saudável de um indivíduo da espécie humana num Espaço Urbano é correspondente ao oxigénio produzido por uma superfície foliar de 150 m2. Feitos os cálculos, verifica-se que cada indivíduo necessita, teoricamente, de 40 m2 de Espaço Verde num Ambiente Urbano. Desta área, corresponderão, para cada habitante, 10 m2 de espaço localizado próximo da respectiva habitação, até um raio de acessibilidade de 400 m, sendo os restantes 30 m2/habitante destinados ao espaço verde integrado na estrutura verde principal do agregado populacional. Não me parece que haja qualquer cidade portuguesa nestas condições, embora Funchal seja, quanto a mim, a cidade portuguesa que mais se aproxima do espaço verde ideal num Ambiente Urbano e Viseu a cidade portuguesa com maior área relativa de artérias urbanas arborizadas.
Em vez de se diminuir a verdura nos agregados urbanos e arredores, ela tem de ser aumentada, de modo harmonioso e artístico, para que as cidades, vilas e aldeias sejam saudáveis.

quinta-feira, setembro 27, 2007

"Arte na Paisagem" Laura Castro

Da actualidade do tema

A actualidade do tema arte que motivou o projecto “Land Art” no Parque da Lavandeira é hoje visível numa vasta produção académica, na realização de cursos, congressos e colóquios e na quantidade de publicações editadas sobre paisagem e arte. Mas essa actualidade revela-se ainda na criação de museus e centros de arte na paisagem, num movimento que vem dos meados dos anos 70 com a fundação do Yorkshire Sculpture Park, em Inglaterra, facto que originou uma vaga de instituições vocacionadas para a apresentação e a interpretação da arte em cenários naturais. Estas instituições, se podem considerar-se herdeiras da tradição dos museus ao ar livre e dos jardins de escultura criados até aos meados do século XX, devem sobretudo ser consideradas renovadoras dos modelos de divulgação e fruição da arte. O projecto “Land Art”, não se constituindo como projecto de carácter museológico, partilha caracteres vitais deste movimento que, insista-se, é da maior actualidade.

Breve contextualização do Projecto “Land Art”

Nos finais dos anos 60 e ao longo dos anos 70 instalaram-se sinais de revisão e alteração das práticas artísticas que resultaram num profundo questionamento da realidade da arte. Neste contexto, um dos fenómenos mais interessantes é o da Land Art, Earth Art ou Earth Works, que surge nos Estados Unidos da América, através de figuras como Robert Smithson, Michael Heizer, Nancy Holt ou Walter De Maria. Neste período, a sua relação com a paisagem altera-se radicalmente: os artistas deixam a contemplação passiva da paisagem e decidem intervir activamente, alterando-a. A arte já não representa a paisagem, apropria-se dela e apresenta-a. Os artistas saem dos seus ateliers e a sua prática caracteriza-se por intervenções de grande escala na própria natureza, desenhando túneis, escavando a terra, abrindo percursos, deslocando grandes massas de areia, terra e pedras, construindo ilhas e trajectos artificiais. A terra e a natureza passam a ser a matéria, o tema e o lugar da arte. [Estamos longe de Goethe para quem a arte era arte, porque não era natureza].
Para lá desta tradição americana, surgiram na Europa outros artistas como Richard Long, Andy Goldsworthy, Alfio Bonanno, Nils Udo que optaram por intervenções de menor escala e mais simples, contaminadas por práticas antigas de marcação do território, por construções tradicionais, deixando sinais subtis da sua passagem, o rasto da sua presença. Estes artistas procuraram distinguir-se dos anteriores optando, por vezes, pela designação de Environmental Art.
A arte passou a ser encarada como experiência e não como produção de objectos; o público passou a valorizar essa experiência e não a consumir peças de carácter material; a arte passou a acontecer em qualquer lugar e não apenas no espaço restrito da galeria.
Interessante é avaliarmos as propostas dos artistas que participaram no projecto do Parque da Lavandeira, à luz desta situação criada a partir dos anos 70. Algumas das intervenções espelham, de facto, a indefinição e a dúvida, quer sobre o conceito de arte, quer sobre o modo de a fruir, quer sobre o espaço em que ela se apresenta.
É certo que, na sua maioria, foram escultores que trabalharam mas não foram esculturas o que produziram. Optaram por recorrer ao que a própria natureza contém, ao que o parque oferece, instalaram elementos precários do ponto de vista material, fizeram intervenções que nos obrigam a reflectir e a sorrir, e reconciliaram a arte com o mundo natural em que também vivemos. É certo que se trata de intervenções para olhar e ver mas todas elas reabilitam o acto do andar, a importância do caminhar, a presença física do observador no seu meio. [Dizia Gassendi: “Ando, logo existo”].

Sobre o Projecto “Land Art” e sua continuidade

O Parque da Lavandeira tem excelentes condições para a realização de actividades deste teor e o Parque Biológico provou já ter recursos e meios para estas realizações e alargar os seus públicos, para lá de consolidar os que já conquistou. Como primeira acção, trata-se de uma actividade com um certo cunho experimental que poderá desenvolvida no sentido de proporcionar acções com maior pertinência cultural e alcance mais profundo, configuradas na linha de programação agora iniciada.
Entretanto, e para concluir, devo referir que prefiro a expressão arte na natureza à expressão Land Art. A designação Land Art está demasiado conotada com o início de todo este movimento e tem particularidades próprias de enquadramento, escala e horizonte. Mas prefiro ainda mais o termo arte na paisagem ao termo arte na natureza, porque tudo o que nos rodeia é já natureza modelada pelo homem, tratada, alterada, domesticada, ou seja, paisagem. Afinal, não é a paisagem a natureza “artealizada”? [Alain Roger].
Projectos como este podem mostrar-nos aquilo que o olhar dos artistas potencia e o poder poético e prático das suas intervenções. Na reconversão, na reconstrução, na recuperação de paisagens e espaços, o papel dos artistas é fundamental. Nem sempre as suas intervenções se impõem pela escala ou pela monumentalidade, pelo excesso de design, pela afronta e imposição de elementos adicionados ao existente, mas, ao contrário, essas intervenções podem afirmar-se pela subtileza, pelo respeito pelo envolvente, pelo acto de reforçar ou potenciar algo que já está na paisagem e que os artistas têm capacidade de sublinhar e revelar. Projectos como este permitem-nos esperar ainda mais dos artistas, aqui envolvidos em acções efémeras, e vê-los envolvidos em realizações permanentes, a par daqueles que ordenam e organizam o lugar dos nossos passos, o lugar dos nossos actos, o lugar das nossas vidas.

Laura Castro

Conferencia " A Paisagem como Espaço de Intervenção Artistico "




Laura Castro - prof. de História de Arte
Jorge Paiva - Biologo